Dois mundos

Ele passa os dias assim, sentado, aguardando migalhas para saciar seu vício e se contenta com a breve caminhada diária que força sua deficiência de uma esquina a outra, satisfeito em receber raros trocados para comer a pinga que lhe mata a fome; a pinga que lhe faz a higiene; a pinga que lhe arranca um sorriso e apodrece suas palavras. Uma pontada de desprezo corrompe minha indignação. Saio em busca da compaixão ausente e me deparo com a lembrança do cachorro sangrando, sofrido, com fome e carente que passara por mim instantes antes, implorando com os olhos um pouco de amor que outrora não tiveram quando lhe arrancaram o couro dos quartos, então eu lembro que o doei todo e totalmente.

(Ravena Revenster)