O Juiz deu a sentença:

- Prisão Perpétua!


Eu sabia que não ia escapar desta vez, um dia teria de acontecer. Fugi o tempo que pude, o quanto pude e, talvez por isso, sempre vivi com medo, mesmo acreditando que era boa demais pra me deixar ser "pega". De fato eu era! Agora já não sei. 
O engraçado é que fugi tanto e por tanto tempo que me achei autosuficiente. Foi onde pequei! Num belo dia passeando despreocupada, dei de cara com o juiz num lugar que jamais pensei que o encontraria. "Droga! - pensei - me ferrei!", dei um riso meio irônico e quando me preparava pra sair de fininho, ele me chama com tanta calma e educação, que senti o "golpe" autoritário e minhas pernas desobedeceram sem permissão.
"Fui Pega da forma mais idiota! - eu pensava o tempo todo". Isso me atordoava enquanto lembrava. Só que havia algo maior que, até então, eu não tinha prestado atenção. Naquele instante, em frente àquelas pessoas, não era raiva que eu estava sentindo e nem arrependimento. Era algo que não sabia o nome. Algo que me fez demorar pra perceber o outro sentimento que começava a passear dentro da réu sentada ali na cadeira. Como é que eu ia adivinhar que tudo que eu sempre fugi, era justamente o que eu mais queria? Havia um nó em minha cabeça e desatá-lo seria meio difícil naquele momento. Não tenho como escapar, tenho poucos dias antes de me trancarem lá pra sempre. Ainda percorre em meu corpo o quente e frio nas costas e dentro do peito de quando o Juiz deu a sentença. É uma sensação boa hoje, não posso negar, ainda que com medo. Eu quero estar lá. Há pouco tive notícia de que terei um companheiro de cela: um assassino. Isso me assusta! Nunca estive tão próxima de um criminoso, fora eu mesma. A mão do medo às vezes pousa em meu ombro e até penso em tirá-la de mim, mas esse é o medo que mais quero sentir, a prisão que mais quero entrar, a companhia que mais quero ter... Então permito sua mão pousada ali, enquanto o dia não chega e minha preciosa liberdade não se torne apenas uma utopia...



(Ravena Revenster)